“A torcida é parte do Corinthians e nunca tomará outro rumo, comercial.
Estamos ligados de corpo e alma ao Corinthians.” (Flavio La Selva, em citação da 2ª edição do jornal
A Voz da Rua)
Quando questionado a respeito de suas esperanças para o Corinthians em uma Libertadores, é comum que o corinthianista tenha em seu íntimo algumas gotículas de desconfiança em relação à possibilidade do título (devido, claro, aos cansativos insucessos do time neste campeonato) e um rio caudaloso de crença real no que é almejado desde a primeira participação corinthiana neste torneio, em 1977.
Algo certamente esperado pelo corinthianista, por saber e ter consigo desde que se entendeu como ser do mundo Corinthians, é dedicação física e psicológica sem valor mercadológico, respeito venerável à camisa e às duas cores do clube, comprometimento e caráter para com o pacto recíproco de representação em que o jogador se insere ao aceitar jogar no campo pelos que jogam na arquibancada por ele.
Entretanto, nos momentos em que a coletividade corinthianista sente falta dos requisitos e qualidades que lhes mantém ativos na luta pelo Corinthians (esteja onde estiver), há uma ruptura na relação pactual que faz o Corinthians pertencer a sua torcida.
O método de resolução para esta instabilidade de relacionamento é quase sempre o mesmo: aproximação dos que realmente querem o Corinthians como Corinthians e afastamento gradual e permanente dos que querem o Corinthians e a Fiel como fonte rica e silenciosa de dinheiro fácil e apoio passivo.
Cientes do mal que faz o Corinthians padecer, a sofredora (não trouxa) gente corinthiana passa a buscar uma resposta curativa para o adoecimento de seu clube.
Desta vez, em 2011, assim como em todas as outras oportunidades, a iniciativa partiu de consideráveis parcelas críticas pertencentes ao universo das Torcidas Organizadas e de pessoas e setores também esclarecidos, porém não oficialmente organizados. Todos sinceros, todos apaixonados.
E foram lá.
Na quinta-feira, após o primeiro jogo contra o Desportes Tolima, um torcedor levou consigo um cartaz em que pedia empenho e respeito dos jogadores ao Corinthians.
Na quinta-feira, após o segundo jogo e eliminação, muros foram pichados, carros apedrejados; na sexta-feira, cerca de trinta torcedores se prontificaram a protestar novamente, mostrando cartazes em que se observavam críticas mordazes e necessárias, e jogando champangne no carro do mais romântico, honesto e amoroso jogador de nosso elenco.
No sábado, o maior e mais violento protesto até então: mais de trezentos homens, mulheres e crianças foram ao CT Joaquin Grava e apresentaram uma primeira resposta uníssona à situação desgastante e calamitosa a que fizeram o Corinthians e a Fiel chegar.
A contra-reação foi imediata, afinal, qual outra função a mídia teria além de ser mais uma espécie de polícia civil da aristocracia, defensora e fiscal canina da ordem social e política estabelecida?
Blogs e o Twitter também foram utilizados, não só pela mídia, mas também pelos que dela se alimentam sem ao menos retirarem-na a embalagem, como instrumentos potentes para o massacre moral pelo qual passaram os que protestaram.
“Vândalos, marginais”, “Depredaram o patrimônio do clube que amam”, “Essa demonstração de amor é que é difícil de entender”, etc. Multiplicaram-se em minutos as repetitivas análises vazias e manchetes deturpantes com respeito aos protestos, principalmente em relação à manifestação de sábado.
Dizem eles que torcedores verdadeiros não vandalizariam patrimônios pertencentes ao clube para o qual torcem. Porém, uma dúvida desinquieta minha compreensão.
Se é justamente a torcida quem sustenta o time em termos financeiros, comprando infinidades de produtos oficiais, ingressos para as partidas, e/ou se associando ao clube, logo, é relativamente fácil alcançar a conclusão de que o maior patrimônio do Corinthians é a Fiel. Sendo assim, quem depredou e vandalizou primeiro um patrimônio que não era seu?
Um atacante que recebe mensalmente R$ 1,5 milhão e marca 12 gols durante uma temporada inteira vandaliza muito mais os cofres de uma instituição, e de quem a financia, do que um trabalhador e/ou estudante que arremessa uma pedra em um ônibus.
Uma equipe administrativa que eleva os preços de ingressos de jogos se baseando em taxas percentuais consideravelmente incompatíveis com a inflação econômica brasileira depreda irremediavelmente a essência e o perfil do torcedor que freqüenta os estádios para jogar com o Corinthians.
Uma equipe de atletas que prefere manter regalias supérfluas e navegar na Internet a jogar com seriedade, empenho, profissionalismo, cospe e machuca com muito mais gravidade a honra de uma torcida do que fez o torcedor com um carro ao quebrar seu vidro traseiro.
Não que a terceira Lei de Newton possa e mereça ser aplicada em todas as reflexões que tematizem sobre o desenvolvimento de relações humanas, contudo, no caso das (re)ações que a torcida praticou para com a equipe é perfeitamente viável encaixar este postulado.
Houve um longo período de absorção de desrespeito, humilhações, esnobismos, mentiras, teatros. Chegou um momento em que não houve mais espaço em nossos sacos de paciência, e por isso foi preciso esvaziá-lo. A derrota para o Desportes Tolima não foi a única causa para tanto, foi sim o estopim, a gota d’água.
Dirão, assim como já propalaram, que a demonstração de insatisfação é um direito, a não ser que seja exercida com violência. Porém, é válido dizer que foi também por causa de várias movimentações e agitações violentas que transformações foram conquistadas e efetivadas em nossa sociedade.
Para não ser tratado como um dependente da História, usemos o exemplo hodierno do Egito: quanto sangue, quantas pedras, quantos carros, quanto fogo, quantas vidas não foram demandados nessa luta por melhores condições de vida, melhores condições de felicidade, melhores condições de fala pública?
Não que eu queria comparar Corinthians e Egito, situação com situação. Longe disso. Mas quanto da vitória de hoje não terá sido inspirado por cada uma das pedras da manhã do sábado?
A violência incomoda, mas nem sempre é inútil. A violência também ama, assim como odeia. Não é diferente com um abraço, com um beijo, com um olhar, com o jogar, com o negociar, com o roubar.



Não concordo, a violência provocou a morte de Willian Morais e quantas pessoas ja se foram por causa da violência.
–Há mais foi por parte de bandidos. Então porque eles se tornaram bandidos e acham que agiram em defesa própria? R= Os especialistas trarão infinitas teses.
E nas transformações que foram conquistadas e efetivadas pela sociedade foram violêntas por parte dos que exerciam o poder e rechaçada pela sociedade. Ao contrario do que você esta pregando.
Preços absurdos dos ingressos não compre, proteste!
Jogador não corresponde não veja seu futebol, proteste!
Mas proteste sem violência, se a torcida também é patrimonio do Corinthians (eu também acho) e vocês acham que o protesto só funciona com agressividade, fiquem um de frente pro outro com porrete em punho, e comecem a se bater, também estarão destruindo o patrimônio do clube.
Século 21 ja é tempo de raciocinar, façam protestos pacificos usem o poder da caneta, abaixos assinados, da informática e outros varios caminhos, tenho certeza que não serão rechaçados por quem está no comando do Corinthians.